As moscas de Tribeca
[Publicado na Visão a 22 Mai 2026]
250 mil euros para Chazz Palminteri fazer um espectáculo a solo no São Jorge. Eu sei. Não se fala de dinheiro. Mas 250 mil euros? Tudo a favor de Chazz Palminteri. O homem foi “Cheech”, essa criatura magnífica que Woody Allen arrancou à costela de um anjo e ungiu com nuca grossa. O gorila metafísico que, nos anos 90, conquistava o coração de qualquer adolescente aprendiz de cinéfilo.
Mas eis o facto: a EGEAC desembolsou esta fabulosa quantia para apoiar uma iniciativa do grupo Impresa. Um apoio à cultura. Ou, pelo menos, àquilo que o actual executivo camarário de Lisboa entende como cultura.
O evento é uma programação lateral ao Tribeca Festival Lisboa. Sabem o que é? Bem. É um certame que Robert De Niro ajudou a inventar há uns anos em Nova Iorque e que agora acontece também por cá.
Digamos que a coisa não se reduz a um caso de dinheiro público discutível. É um pouco mais triste. Consiste na crença infantil de que uma cidade se torna culturalmente relevante quando põe as suas elites a circular perto de estrangeiros reconhecíveis. E quando digo elites quero dizer as pessoas que trabalham na SIC.
Há nisto uma candura anos 80. Aquele espírito que causava arroubos nas salas de cinema quando, em A Casa dos Espíritos, as torres das Amoreiras surgiam em segundo plano. De repente, éramos vistos. Portugal existia, ali ao fundo, atrás de Winona Ryder e Antonio Banderas. É a mesma disposição que nos faz sentir confirmados sempre que ouvimos Suzanne Vega a dizer “Portuguese woman” em Ironbound. Grande canção. Grande Suzanne Vega. Mas que miséria interior é essa que ainda nos faz precisar de citações internacionais para nos sentirmos vivos?
Pois agora arranjou-se isto. Vem alguém de fora, de preferência com passagem por Hollywood, Nova Iorque ou por uma dessas geografias que ainda fazem estremecer a nossa alma subalterna, e Lisboa sente-se justificada. A cidade desabotoa a camisa. A Câmara põe-se em bicos de pés. E a cultura, vejam bem, resume-se à possibilidade de Ricardo Araújo Pereira, Ricardo Costa, José Alberto Carvalho, Catarina Furtado, ou qualquer outro nome da respeitável galeria Impresa, aparecer nas imediações de Whoopi Goldberg, Meg Ryan — se ainda conseguirmos descobrir, debaixo daquele rosto desfigurado, a actriz americana mais encantadora dos anos 90 — ou qualquer outro peso médio do star system de Hollywood, disponível para vir comer uns pastéis de nata e fazer um dinheirinho extra.
O Tribeca Lisboa apareceu-nos nuns cartazes e nuns anúncios, envolto nessa neblina de cinema, Nova Iorque e acesso de Lisboa a uma qualquer liga imaginária das cidades que interessam. Sabe-se que há por lá umas projecções. Umas conversas. Umas estreias de umas telenovelas. Umas coisas — tudo menos cinema, o que é admirável, tratando-se de um festival de cinema. Sabe-se que aquilo anda meio às moscas. O que é natural uma vez que há limites para o interesse do público em ver a SIC a contemplar-se a si própria.
A pergunta, portanto, mantém-se intacta: o que entende a Câmara de Lisboa por política cultural para Lisboa? Mecenato municipal para operações de prestígio importado organizadas por um grupo privado de comunicação? Uma coisa é investir em cultura; outra é subsidiar a encenação social da cultura.
Apesar da entrada do grupo de Berlusconi, não consta que o Grupo Impresa nade em dinheiro. Não é preciso imaginar conspirações. A superfície já é suficientemente elucidativa. A SIC quer promover as suas vedetas no convívio com os grandes; Moedas gosta de ajudar. É um festival sem mistério.
Mas o provincianismo já nem sequer consegue ser verdadeiramente público. Quem sabe realmente que isto acontece? Quem lê os artigos dedicados a Chazz Palminteri no Expresso? Quem o compra? Quem entra nesse país paralelo?
A cada aquário o seu oceano particular.
Lisboa quer mundo? Venha o mundo a Lisboa. Mas confrange vê-la assim, a comportar-se como se só existisse quando alguém a fotografa. Do mal o menos. O que vale é que quase ninguém sabe que aquilo existe.




Há um certo complexo muito português de achar que algo ganha automaticamente estatuto de “obra-prima cultural” no segundo em que recebe validação estrangeira. Se um projeto passa em Tribeca, em Cannes, num subúrbio de Berlim ou aparece em duas linhas num jornal inglês, de repente cá dentro trata-se como se tivesse sido descoberta a próxima revolução artística mundial.
É bonito ver a SIC a posar de elite intelectual internacional, como se fosse a versão portuguesa da HBO, quando o verdadeiro core business continua a ser: “E se a protagonista descobrisse que afinal o vilão é o próprio pai… outra vez?
... e já agora que falamos de gastar bem o dinheiro (coisa que o Estado português faz como nenhum outro!)... ou como diriam os Monty Python... and now for something completely different... "Fundação CCB assegura 2,5 milhões do PRR para requalificação e valorização...Projetores de iluminação cénica nos auditórios!"...