Os nossos heróis (ii)
[Publicado na Visão a 20 de Fev. 2026]
Toda a gente teve heróis de infância. Eu tive o Bonanza. E o Rui Águas. O Bonanza dava aos Sábados de manhã, no Lecas. O Rui Águas dava aos Domingos à tarde no Benfica. Um herói, nessa idade, é alguém que aparece sempre à mesma hora e nunca falha. É pouco exigente.
Depois cresce-se. E começa-se a admirar figuras mais cabeludas. Sid Vicious. Paiva Couceiro. Nanni Moretti. Não interessa quais. Interessa o mecanismo. Cada idade escolhe os heróis que consegue suportar. Eu, cada um a seu tempo, amei-os a todos. Sem ironia. O que hoje me parece algo imprudente.
Há, porém, uma idade perigosa. A pior de todas. Aquele tempo imediatamente a seguir à adolescência. É aí que o herói deixa de ser herói e passa a ser mestre. Um mestre já não se aplaude, obedece-se-lhe em silêncio.
Daí que quando um grupo de miúdos decide chamar-se “Heróis do Mar”, assim, sem mais nem menos, esteja a pôr os pés no terreno minado do destino. Ter-se-á dito: “A audácia.” Em Portugal, uma banda chamar-se pelo nome do país já é provocação suficiente. Mas aqui havia mais. Chamaram-se Heróis. Uma banda a chamar-se “heróis”. É de uma imprudência napoleónica.
Não é inédito, concedo. Há os Heróis del Silencio. Mas esses vieram depois. E o oxímoro latente no nome já pede desculpa. Os Heróis do Mar não pediram, o que é sempre imperdoável. E pior: é magnético.
Andava eu entre os Strokes e o Lou Reed, a meio caminho entre dois tipos de pose, quando fui apanhado por uma tempestade perfeita, pessoal e fora do prazo: era o tempo certo na banda certa. Confirmava intuições — o português cantado, os arranjos ambiciosos, a pose desafiando o ridículo, aquela gravidade messiânica — e revelava a inclinação de uma natureza dada ao anacronismo. Sou um tipo muito fácil de conquistar, admito. Sobretudo quando ninguém está a tentar conquistar-me. Sobretudo por objectos perdidos.
E assim os Heróis tornaram-se nos meus mestres. Num grau excessivo, como convém. Tão excessivo que dei o nome de uma canção deles a uma editora. Dei-o a mim próprio. As comparações com os Golpes, a minha banda da altura, seriam inevitáveis. E, convenhamos, justas.
A coisa foi de tal modo que, numa tarde de 2008, no miradouro da Graça, quando finalmente conheci o Pedro Ayres Magalhães, só fiquei satisfeito depois de lhe arrancar — no gesto mais roque- enrole possível, precisamente por ser o menos roque-enrole possível — uma espécie de bênção patriarcal para o projecto da editora. Não fiquei ileso. Obtive um sermão e saí de lá mais leve e mais humilhado. Um hábito que se tornaria recorrente nos nossos encontros.
O Rui Pregal da Cunha era diferente. Uma figura. Dono de uma luz própria, temperamento generoso, e de uma disciplina no gesto que impunha respeito. Cantou connosco o Vá lá Senhora; tornou-se um aliado. Um quase igual. Mas nunca atravessámos essa fronteira invisível. Porque há qualquer coisa de impróprio quando nos aproximamos dos nossos heróis. Como se o amor que temos por eles nos impedisse, por obséquio, de atravessar o último apeadeiro da cerimónia. Como se a intimidade fosse uma forma de traição. Como se na relação com eles se compreendesse, afinal, o que São Francisco — que não consta que fosse sentimental — quis dizer com a frase “é melhor amar que ser amado.”
E então lá estavam eles, naquele fim de tarde de Quinta-feira. Celebrando o seu mural no Calhariz de Benfica. Todos juntos. O Pedro, na sua gravidade sacerdotal, cumprindo o dever moral de me apontar os defeitos de uma coisa qualquer que eu tinha feito há uns tempos. O Rui, naquela contagiante soltura juvenil, querendo saber da data de lançamento do meu próximo disco. E depois o Carlos Maria, diáfano, quase etéreo, sempre a um passo de desaparecer; o Tó Zé, que conhecia apenas como o mais elegante baterista dos anos 80 e que passei a saber distinto no trato; e, claro, o Paulo: dominador, xamânico, inevitável.
Riram, abraçaram amigos, beberam espumante em copos de papel e tiraram fotografias com fãs de quinze e de setenta anos. Uns “Stones meio vagos”, como lhes chamou o Filipe Costa Almeida, depois de ter enviado uma fotografia pelo telemóvel. Tudo como tinha de ser. Na distância que os mantinha intactos.
Atrás de si, no padrão hexagonal daquela parede — a fazer lembrar os módulos da Simmons do Tó Zé —, “Fiéis ao romance”: a frase de uma vida inscrita no betão.
Porque um herói não é fiel a um público, nem a um tempo. É fiel ao erro inicial — belo e irreversível — que o afasta de quem o ama. Para que, do outro lado dessa fenda — perto o suficiente para ferir, longe o suficiente para não se deixar tocar — possa continuar a exercer aquele tipo de autoridade que só reconhecemos a um preceptor.
Os ídolos exigem devoção. Os heróis pedem afastamento. Por isso, só se podem ver assim: ao longe.



