O tempo e a maçã
[Publicado na Visão a 8 Mai. 2026]
E então diz o Gonçalo: — “Portugal seria lindo sem os portugueses, ou com os portugueses de 1500.” Não vou dizer quem é o Gonçalo. Mas a frase é boa. E a graça, quase natural: dizer que Portugal é um país maravilhoso, pena nós que cá estamos, e acaso fosse ocupado por, sei lá, eslavos, talvez cumprisse o seu pleno potencial, é daqueles recursos de algibeira que um sujeito deveria ter sempre a jeito e em qualquer circunstância.
A piada funciona porque toca numa ferida. O português tem essa volúpia de ser um Narciso ao contrário. Uma pulsão autofágica de quem já viveu muito e sabe o que elas doem. Vai daí, por instinto, defende-se de tentações de grandeza e seus respectivos tombos.
Isto não significa, porém, que não haja portugueses extraordinários. Portugueses que talvez pertençam, por alguma espécie de linha enviesada, à família espiritual dos de 1500. Há-os. Conheço alguns. O Rui Reininho é um deles. A Lourdes Castro também. Outro é o Miguel Milhão, no seu modo brutal e improvável. O que os une não é a pureza portuguesa, que nunca existiu. É precisamente o contrário: a capacidade de se tornarem portugueses por contacto com outra coisa. O português que se cumpre não é o que se fecha na sua pequena mágoa nacional. É o que sai, e se expõe, e aceita a contaminação do mundo. É bem possível que tenha sido isso, e não outra coisa, o que um dia se chamou Quinto Império.
E se o leitor ainda se está a perguntar o que tem o Reininho de estrangeirado, eu explico: o Reininho descobriu o estrangeiro dentro de casa. Não precisou de ir longe porque olhou para a língua, para a canção popular, para a televisão e para o mau gosto nacional como se tudo isso fosse uma ilha do Pacífico acabada de descobrir. O estrangeirado, nele, é a capacidade de olhar para o que é próximo como se fosse radicalmente estranho. Às vezes não é preciso sair de Portugal. Basta sair da obediência ao Portugal que nos deram.
De vez em quando, esta verdade aparece concentrada num objecto diminuto. Não é preciso um museu, basta um relógio — essa coisa pequena, presa ao pulso, a fingir que conta as horas quando, na verdade, conta uma ideia de mundo.
A Cauny é uma marca suíça antiga, hoje nas mãos de Filipe Costa Almeida, um tipo suficientemente discreto para que tudo pareça ainda mais improvável. Isto, só por si, já daria uma pequena parábola nacional: o português que não inventa uma relojoaria de raiz, mas ressuscita uma marca estrangeira, atravessa-a com inteligência portuguesa e põe-na a conversar com arquitectos. Primeiro Siza. Depois Souto Moura, Rafael Moneo, Tadao Ando. Não é pouco. O que poderia parecer uma operação saloia de prestígio importado é, afinal, uma ideia consistente: uma série onde arquitectos pensam o tempo.
O relógio de Tadao Ando é uma maçã. Uma maçã verde. Para o arquitecto japonês, a maçã verde representa a juventude; não propriamente os anos que levamos acumulados, mas a disposição interior. É assim que a Cauny apresenta o relógio, a partir das maçãs da iconografia de Ando e do poema Youth, de Samuel Ullman, que o próprio japonês costuma citar. A caixa, redonda como nunca uma caixa de relógio parece ter sido redonda, sugere a maçã; os ponteiros lembram a folha e o caule; o mostrador vazio deixa o tempo respirar. É bonito. E é perigoso.
É que uma maçã nunca é só uma maçã. Desde o Génesis que o sabemos. Uma maçã é sempre a possibilidade de uma queda. E a juventude, essa mentira magnífica, a mais sensacional forma de abismo.
Numa fotografia promocional recente, apareço com um relógio verde a fazer de pala de pirata. Pois. É o tal Cauny. Ao ver os primeiros esboços reconheci imediatamente o parentesco com Verde Veneno, o disco que saiu agora e que estava a escrever na altura. É claro que gosto de objectos bonitos. Em dias maus, o que me vale é a forma das coisas. Mas o ponto não era esse. Foi como se aquele relógio me tivesse devolvido, em versão japonesa, imaculada, a imagem da esperança antes de saber que também pode ser morte. Da Branca de Neve antes de tudo. Aquilo que eu estava a compor era habitado por uma ideia de promessa, mas já ferida. Pôr o relógio assim, atravessado diante dos olhos, não significa que este Ando seja uma espécie de paliativo para um olhar condoído, mas também pode ser que não signifique o contrário.
O Cauny Ando é uma maçã portuguesa, suíça e japonesa; uma pequena máquina de medir o tempo que, em vez de nos lembrar a velhice, nos tenta com a juventude. Uma coisa que avança andando para trás. Foi preciso um português atravessar o mundo para que isto acontecesse. Acho que é assim que Portugal ainda consegue ser grande: quando deixa de falar sozinho e arranja maneira de se sentar à mesa com o outro.





Fenomenal!! Sorrio, às vezes rio e leio alto o que escreves...Manel, és genial!