O 28 de Maio, Miles Davis, e o esgotamento da forma
[Publicado na Visão a 29 Mai 2026]
Miles Davis e o General Gomes da Costa entram num bar. Podia ser o Coelho Quincas e D. Dinis? Otelo Saraiva de Carvalho e o Ursinho Puff? Podia, na medida em que são parelhas inusitadas — exactamente como a fórmula exige. Mas seria preciso outra coisa que não apenas a graça do desencontro: há mais em comum entre o 28 de Maio e Birth of the Cool do que a nossa prudência gostaria de admitir.
Comecemos pelo 28 de Maio. Ou, melhor: pelo cadáver que havia antes de 28 de Maio de 1926.
A Primeira República caiu porque, antes de ser derrubada, já se encontrava em processo avançado de decomposição. Não que alguma vez tenha estado em grande forma. Com 45 governos em 16 anos, não seria fácil. Ao contrário do que ainda se insiste em ensinar nos manuais de História, o que caiu em 1926 não foi propriamente uma donzela esplendorosa profanada por bárbaros de bigode e espada. Foi uma República violentíssima, incapaz de produzir paz civil ou continuidade governativa. Golpes, contra-golpes, bombas, greves, perseguições aos católicos, assassinatos; uma classe política fechada sobre si própria e incapaz de se reformar — incapaz até de perceber que nunca fora capaz de governar absolutamente nada.
Podem chamar-lhe o que quiserem, revesti-la de boas intenções, atribuir à sua queda todas as sombras que forem capazes de inventar retroactivamente. Nada disso resolve o problema central de aquela forma nunca ter sido capaz de conter o país. É que antes de se discutir o valor abstracto de um regime, há uma pergunta anterior: esse regime consegue governar a realidade?
No caso da Primeira República, a resposta é evidente.
É por isso que, cem anos passados do golpe do 28 de Maio, não fazia mal nenhum celebrá-lo. (Isto vai provocar arrepios. Paciência. Há pessoas que se arrepiam com tudo.) Hoje, como então, é uma questão de salubridade. Porque houve um momento em que uns quantos homens perceberam que a continuação daquele estado de coisas era insuportável. E sim, Portugal ficou melhor depois. Não há grande novidade nisto. Os dados estão aí e são públicos. Também estávamos melhor durante a Monarquia Constitucional, mesmo que não estivéssemos grande coisa. E, possivelmente, teria sido bom se Salazar tivesse caído mais cedo.
A questão, porém, é anterior a estas coisas todas. Não que não importem. Importam certamente. Mas o que estou a tentar dizer tem mais a ver com a política como a prática de produzir o melhor bem comum possível. E, entre a balbúrdia sanguinolenta de uma República jacobina e a reconstrução possível de uma autoridade política mínima, Portugal não piorou. Pelo contrário.
O ponto é simples, e é iconoclasta: os regimes devem cair.
Todos eles. Repúblicas, democracias, ditaduras, constituições com hinos inspiradores. Tudo. Há valores anteriores aos regimes, como a paz pública, a possibilidade de rezar, trabalhar, dormir, existir sem medo. Se um determinado entendimento político não é capaz de garantir estas coisas é preciso partir para outra. Só os fanáticos é que precisam de pacotes completos para se sentirem justificados.
Então e Miles Davis?
Bem. Também faz cem anos. Também merece celebração. E, em princípio, teria mais que fazer do que aparecer neste texto, pobre diabo. Mas acontece que Miles Davis é um golpista estético. Por uma espécie de instinto ou inteligência formal, quando uma linguagem começava a cristalizar, ele inventava outra; quando o jazz se preparava para ficar satisfeito consigo mesmo, Miles trocava-lhe as voltas.
Miles Davis é a pedra angular desta ideia: certos homens, dotados de uma clarividência não ao alcance de todos, compreendem, antes dos outros, que um determinado estado de coisas chegou ao fim. E que a verdade, para manter a sua vitalidade, precisa de uma forma diferente que a proteja: o que não deixa de ser perigoso. Miles abandonou o bebop, inventou o cool, abriu caminho ao modal, desfez o jazz pelas entranhas, electrificou-o, empurrou-o para o rock, para o funk, para a electrónica, para o hip hop. Passou a vida a dar golpes de Estado dentro da própria música.
Tal como certas convenções estéticas já só abafam aquilo que deviam revelar, certos arranjos políticos já só sobrevivem como uma espécie de casca desidratada. Não se sente? A comparação não é moral. Seria absurdo. É formal. Ou melhor: é sobre o momento em que uma forma deixa de conseguir sustentar a realidade.
Há sempre um momento em que a verdadeira inteligência consiste em perceber que a ordem existente já não ordena coisa nenhuma.




Associação inesperada e genial pela pertinência! Obrigou-me a pensar: certíssimo quanto à substância: há valores aquém. Não é totalmente aceitável quanto à comparação: o Marechal não deixou obra (deu um pontapé na dita, para afugentar as moscas: só; o Miles, até um ignorante como eu sabe que deixou rasto). Anyway: os meus parabéns!
O mais inusitado dos argumentos é, na tua exposição, o "caminho"....Sempre a conseguires fazer pensar e sorrir mas, em simultâneo, a , fazer caminho! Miles Davis foi , então, um permanente "golpista"?! BOA! GOSTEI!