Fumo e Civilização
[Publicado na Visão a 26 Jun. 2026]
Fim do ano lectivo: o trânsito amaina, as escolas de surf facturam, os pais recebem recordações compradas pelos filhos que regressam dos passeios da escola. O Sebastião, que fez um pequeno périplo por lugares históricos do nosso país, trouxe-me um cinzeiro a dizer “Portugal”. E abriu uma fenda no mundo.
Em tempos, não havia presente do Dia do Pai mais natural do que um cinzeiro. Depois deixou de ser. Nesses tempos, o mundo era um sítio enevoado. É verdade que não havia tantos oculistas, mas também se fumava mais. Os cafés eram palácios de fumo. Entrava-se e não se via nada. Primeiro vinha o cheiro. Depois o rumor. E só depois o café e a conta. Era a civilização.
O fumo tornava tudo mais real porque impunha a dúvida. Como no amor. Como na morte. Como em tudo o que interessa. O mundo não estava menos presente por estar menos nítido. Pelo contrário: era a névoa que lhe dava profundidade.
Considerem-se as Igrejas. Porque é que as associamos à presença do divino? Pelo Santíssimo Sacramento, naturalmente. Mas também pelo fumo. O homem não é uma pura inteligência a pairar no vazio. Precisa de sinais. Precisa que o invisível lhe aconteça de alguma maneira.
As pessoas iam à Missa para ouvir a Palavra de Deus e presenciar o Santo Sacrifício. Mas também iam para ser envolvidas pela névoa do incenso, essa evidência sensorial do invisível. O incenso não explicava Deus. Fazia muito melhor: impedia que Deus fosse reduzido a uma explicação. Uma Igreja fumarenta era um vislumbre do Céu, porque o Céu, como toda a gente sabe, é um lugar com nuvens.
Daí que, sempre que um grupo de pessoas se junta num mesmo espaço com paixão e propósito e alguém, inevitavelmente, se lembra de dizer “isto era um templo”, seja quase sempre mentira. Redacções, estádios, salas de concertos, cinemas antigos: não interessa. Um templo não se faz de pedra nem da memória emocionada dos seus fiéis. Um templo faz-se de atmosfera. De uma densidade. De qualquer coisa que impeça a realidade de se entregar à primeira vista.
A verdade não é cristalina. Aparece segundo os seus próprios termos. Pede aproximação. Obriga-nos a semicerrar os olhos. É o que se esconde na bruma.
E eis que um dia o homem declarou guerra ao fumo. Aspirou-o das nossas vidas. Relegou-o para a condição degradante de vício solitário. No seu lugar, ficou este mundo desesperadamente claro, onde tudo se analisa e se denuncia.
Num torneio de râguebi — imaginem: um torneio de râguebi —, os rapazes jogavam num campo rodeado de árvores, passarinhos e famílias sadias com garrafas reutilizáveis. Chamo-lhe campo por generosidade; aquilo era uma reserva natural com postes. Acendi um cigarro. Mal dei a primeira passa, um pai virou-se na minha direcção e disparou:
— Acha bem?
Perguntei-lhe o que supunha ele que eu devesse achar bem.
— Isso que está a fazer.
Ficámos por ali. Ele, no seu sacerdócio sanitário. Eu, no meu pequeno delito atmosférico. (Faltou, claro, um “the jerk store is running out of you”; falta sempre.)
O fumo tornou-se intolerável porque dá forma a uma fricção. Desenha no ar uma liberdade desagradável. E o século não suporta o que não possa ser imediatamente disciplinado.
Ao banir o fumo, a nossa civilização eliminou uma imagem inteira do mundo: tudo o que fazia da vida uma coisa menos eficaz e, por isso mesmo, mais habitável. Os escritores, por exemplo. Não é que se escreva melhor com um cigarro, mas é prudente desconfiar de tudo quanto se possa dizer sem vício e sem cinza.
Transparência é o nome virtuoso de uma mentira. Vê-se tudo; já não aparece nada. Um dia destes, vamos chegar à conclusão de que a beleza desapareceu de tão visível que ficou.
Sabem que mais? Fumem. Fumem muito ou fumem pouco, não interessa. Mas fumem. Cachimbos, charutos e cigarros. Em maço ou de enrolar. Fumem como quem faz um exorcismo. Como quem reacende um altar. Nos cafés, nos carros e, se forem audazes, nos Centros de Saúde. Não interessa a conveniência do lugar. Interessa a urgência do acto. Tragam fósforos; recupere-se o fogo; abram-se as fronteiras para os que, no exílio dos espaços exteriores, fumam como criminosos.
E depois ponham o cinzeiro na mesa, como quem assenta a primeira pedra.




Não há nada pior que um selvagem higiénico-sanitário!