Cromos e Carne
[Publicado na Visão a 5 Jun. 2026]
Festa do Corpo de Deus: o meu feriado preferido, e o melhor feriado que há. O nome devia bastar para travar quaisquer tentativas de sentimentalismo. Não se trata da ideia de Deus, nem da energia de Deus. Não é a experiência interior, afectiva ou psicológica de Deus. É o corpo. Essa coisa bela, feita de limites e transpiração, e que tem dado dores de cabeça aos espiritualistas de todos os tempos.
No dia em que Jesus avança pelas ruas, os católicos dão por si devolvidos à carne, que é o limite fundamental da sua fé. Nunca é demais insistir: o cristianismo não é a religião das almas que se safaram do corpo. É a religião do Deus que quis ter corpo; e que nos salvou, não apesar da fome, da sede, do cansaço, da ferida e da morte, mas através da fome, da sede, do cansaço, da ferida e da morte.
É o que é. A fé católica tem maneiras más. Quando o mundo quer sublimação, ela mostra uma Hóstia. Quando o mundo se refugia nas nuvens, ela dá-lhe na cabeça e puxa-o para baixo, para a rua, envolvida no pálio, com o seu mistério redondo, branco e frágil.
Há um conto da Flannery O’Connor, chamado “The River”, em que um rapaz, depois de ter sido baptizado por um pregador, leva a sério a ideia de que no rio encontrará o Reino de Deus e volta sozinho à água. Acaba por se afogar, numa daquelas cenas brutais em que já não se consegue perceber bem o que é Graça e o que é violência. Ou se é possível uma sem a outra.
Bevel, o miúdo, entende a fé como uma criança a entende, ainda antes de aprender a grande arte adulta de tornar tudo inofensivo. Não faz teologia lateral. Faz teologia literal. Encarnada. Que é a única teologia que interessa. Reino é Reino. Corpo é Corpo. A promessa é a promessa.
Dirá o leitor higiénico: mas isto é uma brutalidade. Bem. A fé, quando é fé, é uma brutalidade. Mas seria um erro tomar essa brutalidade como uma diminuição. Um erro duplo. Por um lado, porque o calendário litúrgico é sábio: arranjou, precisamente, um dia para nos lembrarmos do corpo. (O corpo é uma violência. É por isso que o tapamos com roupa.) Por outro, porque é assim que as pessoas vivem a fé, quando a fé é real. Não é por acaso que Bevel é uma criança. A fé é uma criança. O imaginário terapêutico pode ter colonizado as paróquias, mas as almas nunca deixarão de ter sede. Podem até sentar-se numa roda a partilhar. Mais cedo ou mais tarde, acabarão diante da água.
E é mais ou menos este o drama da caderneta de cromos do Mundial. Têm acompanhado?
Para além da febre — palavra auspiciosa — que tem levado a rupturas de inventário e ao desespero de crianças, pais e avós, sabe-se também que a FIFA, depois de 56 gloriosos anos, vai trocar os italianos da Panini pelos americanos da Topps.
A Topps, que já anda há muitos anos nisto, promete inovar. Uma das novidades será a inclusão de retalhos das camisolas dos jogadores incorporados nos próprios cromos. Leram bem. Tecido usado nos cromos. Não é maravilhoso? Não é pavoroso? Não é, enfim, humano? A criança abre a carteirinha e sai-lhe uma relíquia.
Para fazer do futebol uma religião definitiva só faltava perder o pudor hagiográfico. Os cromos já eram pagelas. E a caderneta o breviário possível. Já se considerava o repetido com o melancólico estatuto de santo sem culto. Agora, porém, querem carne. Ou melhor: precisam.
Ninguém se converte ao imaterial. Isso não existe. Nem os modernos, nem os coleccionadores de cromos. A matéria regressa sempre. Ou como diria Esteves, o nosso carnívoro predilecto, o “substracto”. O nosso tempo continua esfomeado de corpo. De um corpo qualquer. Despreza os limites da carne e, ao mesmo tempo, não descansa enquanto não fabrica sucedâneos dela.
Tem graça. Vou a meio da Magnifica Humanitas, a encíclica de Leão XIV sobre “Inteligência” Artificial — facto que já me põe acima da totalidade dos comentadores e abaixo de qualquer pessoa decente. Adiante: dei com uma frase. Parecia surgir, não apenas da página sobre o transumanismo onde estava escrita, mas como continuação do próprio feriado do Corpo de Deus. Dizia assim: “(...) devemos recordar que o humano não floresce apesar dos limites, mas (...) através dos limites.”
É uma ideia perigosa. Os americanos dos cromos — com aquela intuição americana que nos soa sempre a uma forma de desplante — perceberam a questão e preparam-se para fazer má teologia. Teologia em todo o caso. O símbolo é sempre curto; é preciso carne. Mesmo que seja de poliéster.



