Corpos
[Publicado originalmente na Visão a 20 Jun 2025]
A. foi a Budapeste. — “Cidade muito bonita”, disse, e não duvidei. É aquele charme imperial de uma Europa em fim de linha, os tons e jeito “transilvânico” — assim mesmo descrito por A. — dessa meia-luz cor-de-vinho que mancha o jugo e as têmporas da cidade. Depois, a adversativa fatal. Hoje, quando alguém regressa de um passeio há sempre esse “mas”. Todo o viajante moderno o guarda para fazer a ressalva fundamental. Como se em vez de lugares, houvesse apenas duas categorias: destinos turísticos e antiturísticos. Os segundos são os mais desejados, claro. E quanto mais difíceis, melhor; mesmo que por sanções ou guerras ou medo (o ocidental tem um apetite voraz pelo inacessível). São Petersburgo, por exemplo, é um paraíso do antiturismo; “uma maravilha de antiturismo”, diria A. se tivesse de lá voltado. Budapeste não. Budapeste é como Lisboa. Um inferno do turismo.
Numa espécie de lamento armado em sabedoria de WhatsApp, observei o seguinte: — “Sabe A., o mundo precisa de menos turistas e mais peregrinos.”
E, súbito, o dia era ontem: 19 de Junho, Corpus Christi, assim mesmo no original. Corpo de Deus, foi o Feriado do Corpo de Deus.
Esta Lisboa afogada por turistas, acossada por turistas, desfigurada por turistas, desvelou-se. Abriu-se a boca de esgoto do antiturismo. Por debaixo daquele alçapão que ali há, para os lados da Rua da Conceição, directamente das galerias romanas, do subsolo lisboeta, eis que, qual criatura mitológica, emerge o povo católico. Ele existe, caro leitor! Existe e somos esta gente que vem de t-shirt branca com siglas azul-claro e sapatilhas Sketchers “handsfree”. Ou então engravatada, impecabilíssima. Uma gente de calções e chinelos de meter o dedo. Pessoas de todas as dimensões. Muitas velhinhas que cantam (bem-aventuradas sejam as velhinhas de sapatilhas Sketchers “handsfree” que cantam, pois delas será o Reino dos Céus). Uma gente com fé. Uma gente com joelhos. Que se organiza em confrarias, escuteiros, Ordens e Irmandades. E a Guarda a cavalo; e as famílias à janela. Como naquele primeiro andar do 12 da Rua de Santo António da Sé, sempre o mais bonito, com as colchas de Castelo Branco penduradas com cuidado cerimonial.
Amarelecidos pelo tempo, é certo. Mas o arcaboiço de uma civilização. As articulações de um Oeste que ainda se chama Ocidente.
A Lisboa laica agradece. Só pode. É como se a rectaguarda católica, em nome de todos, se tornasse na vanguarda de uma revanche contra o turista invasor. Uma vingançazinha ocasional. Como se dissesse, como A.: — “demasiado turismo.” Contudo, esse não é o ponto do povo de Deus. Por ele, o turista que entre na marcha. O que se está a afirmar ali é outra coisa. Uma coisa especialmente subversiva nos dias de hoje.
De que é feita uma pessoa? De espírito? De carne? Dos dois? Nem tanto?
A essa pergunta o católico responde com o corpo de Deus. O corpo do qual todos os outros corpos procedem. E por isso partilham uma natureza semelhante. O que Deus for, nós seremos também em miniatura; assim mesquinha e corruptível.
Hoje só se consegue enquadrar isto como “espiritualidade”, “gestos simbólicos”, “valores universais”. E, por repetição e osmose, vamos alinhando na ideia vencedora de que o corpo é um acessório.
“O meu corpo”, dizem, como quem diz “o meu carro”, “o meu telemóvel”: qualquer coisa que se actualiza e desbloqueia para não trair o “verdadeiro eu” interior. Uma coisa que tanto se tem, como se pode vir a deixar de ter.
Isto é uma ideia terrível. Um golpe dos diabos que nos divide em dois. Um assunto muito sério, lá dos Cátaros, que deveria ter ficado morto e enterrado no século XIV, mas que a New Age recuperou e se tornou dogma académico e doutrina política. É essa ideia que justifica que se “faça” coisas com o corpo. Como vendê-lo, por exemplo. Mas o corpo não é um objecto. É um sujeito. Somos nós, no mais íntimo, no mais público. Por isso não prostituímos o corpo. Prostituímo-nos. Nem fazemos um desenho no corpo. Desenhamo-nos. Não acrescentamos silicone ao corpo. Acrescentamos mentira. Se o negamos, negamo-nos a nós.
Não surpreende, por isso, que de todos os feriados católicos este seja dos mais ignorados. Para além do desconhecimento puro (as pessoas seguem para os seus fins-de-semana prolongados e não fazem ideia porquê), é um dia que nos põe a pensar em corpos. Mas nós não queremos pensar em corpos. O corpo é o grande empecilho dos nossos dias. Os pobres tatuam-no, os ricos querem ultrapassá-lo. No delírio transumanista, acabar com a carne é acabar com a culpa. A própria palavra é incómoda, principalmente no plural: “corpos” — faz lembrar cadáveres empilhados numa vala.
Mas, e eis a afronta: Deus também é corpo. Durante séculos, saiu à rua. Numa procissão que era uma realidade sensorial, política, litúrgica, social. O Santíssimo Sacramento atravessa freguesias inteiras sob o pálio de ouro, entre crianças vestidas de anjo e passadeiras de flores. E a cidade surge para o adorar. O pão consagrado passa como Rei.
Estávamos aqui tão bem na nossa digressão espiritual pelo simbólico e, afinal, Deus é corpo. Um corpo teimoso. Inteiro, como o nosso; de carne, só um. Uma farinha fermentada e viva. Não uma evocação, uma presença. Sem meias palavras.
Por isso é que a procissão tem um sentido tão profundo, não é uma caminhada, são corpos que peregrinam reconciliados com o seu próprio peso. É a possibilidade de uma civilização restaurada; de tornarmos a ser um, de o mundo voltar a estar inteiro.



