Anticorpos contra a carne
[Publicado na Visão a 12 Jun. 2026]
Dia da Criança: o pior dia que existe. Não pelas crianças, coitadas, que já têm desgraças suficientes sem que lhes caia uma efeméride civil em cima. O problema é o calendário civil, essa liturgia para quem deixou de acreditar na liturgia. Tem tudo; só lhe falta Deus, que é uma falta assinalável. No Dia da Criança, todos os adultos se lembram de louvar a infância, o que é, claro, o sinal mais evidente para se desconfiar da data.
O louvor civil pela infância tem vários problemas, um dos quais é não saber deixá-la em paz. E deixar a infância em paz é quase tudo o que de bom se pode fazer por ela. Em tempos não muito distantes, descalçava-se a bota do Dia da Criança com bonés amarelos, rebuçados e uma ida à Feira Popular. Era pouco, dirão. Mas era honesto: a criança recebia açúcar e a possibilidade de desaparecer meia hora no meio da multidão. Ninguém lhe exigia uma visão do mundo.
Hoje é preciso ouvir. É preciso dar voz. É preciso sentar e “falar dos problemas”. E as crianças, sempre à mercê da estupidez de quem toma conta delas, são puxadas para o centro da sala, postas diante de um microfone, e convidadas a confirmar ideias que não são suas.
Foi mais ou menos isto que aconteceu num episódio especial do podcast O Prazer é Todo Meu, do Expresso/SIC, feito a propósito do Dia Mundial da Criança. Dois rapazes, irmãos, de 13 e 15 anos, foram convidados para uma conversa com a Dr.ª Mafalda Cruz sobre sexualidade, pornografia, consentimento — essas coisas. “Geralmente falamos deles; hoje falamos com eles”, disse a anfitriã na abertura do programa, numa fórmula tão bem resolvida que já soava imprópria.
Há algum problema em ouvir miúdos num podcast? Se o assunto for cromos, recreios, professores ou a misteriosa incompetência dos adultos, talvez até se aprenda alguma coisa. Se o assunto for sexo, talvez o mínimo fosse aparecer um travão, um embaraço, um resto de pudor. Mas não. Ali era tudo simples.
Não fora a jovem galenista uma espécie de versão depurada da Rute Remédios — para quem não se lembra, era aquela sexóloga espampanante e desinibida que o Herman José inventou para fazer pouco da franqueza “moderna” do discurso sexual mediático —, dir-se-ia estarmos perante uma paródia. Não é prodigioso? O que ontem precisava de caricatura, surge-nos hoje plácido e luminoso.
E depois havia os miúdos; ou aquilo a que nos pedem que chamemos miúdos. É que não pareciam bem miúdos, mas versões reduzidas dos adultos que se lembraram de os sentar naquela mesa de vidro fosco. Até a t-shirt dos Blur que um deles trazia parecia uma alegoria involuntária. Tudo a favor dos Blur. Mas há qualquer coisa de soez numa infância vestida com a nostalgia dos pais, falando a língua dos pais, para tranquilidade dos pais.
Sobre o conteúdo, poupar-vos-ei à sordidez dos detalhes. O primeiro título que me surgiu para esta crónica foi “Um nojo”. Mas, apesar de tudo, o mais perturbador não foi tanto o conteúdo da conversa quanto o modo da conversa. O verdadeiro nojo esteve menos nas frases do que na limpeza das frases.
Claro que se diz que a pornografia é má. Ia dizer-se o quê? O extraordinário é um adolescente falar nisso como se isso não o afectasse. Nada daquela magnífica idiotia que define a puberdade, mas uma espécie de distância branca, quase espiritual. Como se não fossem adolescentes a atravessar a confusão da carne, mas pequenos cátaros, já libertos do embaraço de a possuir.
Houve por aí umas vozes indignadas, como ainda as há de vez em quando. Uns quantos “ultramontanos” a dizer cobras e lagartos do Expresso e a bradar contra a “sexualização” das “nossas crianças”. Mas o ponto não é tanto a brutalidade, disfarçada de sofisticação, de levar miúdos para um programa sobre sexo. Nem é, exactamente, pô-los a falar nisso — conquanto fazê-lo seja indecoroso. O ponto é o estágio posterior a tudo isso. Não é a sexualização, é a pós-sexualização: o momento em que até uma criança passa a falar do sexo como um assunto neutro. Como se o excesso tivesse obliterado a adolescência e a sobreexposição tivesse conduzido a uma espécie de imunidade triste.
No Dia da Criança, no Expresso, não foi a inocência que se louvou. Também não foi a maturidade. Foi outra coisa: anticorpos contra a carne, assépticos e sem febre. Como se a febre não fosse a saúde possível aos quinze anos de idade.




Excelente