A clarividência contracultural de Ricardo Quaresma
[Publicado na Tribuna Expresso a 8 Jul 2026]
22:03: soa o despertador. Sim, estou a falar do apito final do Portugal-Espanha. Para quem tem dificuldades em dormir, Portugal excedeu-se na arte do atordoamento. Só durante a primeira parte contabilizei quatro bodiões. Quase tantos como o espectador médio numa reposição de Vale Abraão no Nimas. Desculpem-me a comparação com o cinema de Oliveira, esse ao menos é literário e é belo. Apontem: “pescar bodiões” — é como os madeirenses chamam ao gesto involuntário da cabeça que cai para a frente, como se o tal peixe tivesse mordido subitamente o anzol de uma linha presa ao crânio. Dizem mal dos americanos quando se armam em americanos e começam a sugerir maneiras de tornar o futebol mais interessante. Pois bem: a Selecção deu-lhes razão e conseguiu a proeza de fazer do futebol argumento contra o futebol.
Dizer isto devia ser fácil. Há quem o faça — eu, por exemplo. Mas o que eu digo não racha lenha. O que interessa, pelos vistos, é o que dizem os que por lá andaram. Porque, mesmo que se tenha razão, o critério de só-se-pode-pronunciar-quem-um-dia-transpirou-em-campo é o critério reinante. É uma opinião imbecil. Mas é reinante. E, como todas as imbecilidades reinantes, tem o seu regime.
Só que a distância ajuda na perspectiva. É mesmo assim: os castelos erguiam-se nas colinas e os observatórios também. Ao longe tem-se mais alcance. Ou ainda: para não ficar aquém, é preciso estar além.
Daí que, quando Ricardo Quaresma fala, normalmente fala bem. O Quaresma é como eu. Não é que eu fale bem: o Quaresma é que também está fora. Está além. Como assim? Bem. Quaresma esteve dentro como poucos: foi campeão europeu, jogador da Selecção, autor de golos que pertencem à mitologia recente do futebol português. Mas esteve sempre à parte. Fora da escola dos meninos bem-comportados. Fora da estética higiénica do futebol sem rua e sem mistério. E fora, claro, por ser cigano.




Muito bom!