A Bola e o Monstro
[Publicado na Visão a 19 Jun. 2026]
“Montra” isto, “montra” aquilo: não é por acaso que se ouve tantas vezes a palavra “montra” para descrever o Mundial de Futebol. O Mundial é a grande celebração do visível. E vê-se tudo. A relva e os corpos, as lágrimas e as bandeiras, os hotéis e as comitivas, os túneis e as estatísticas e o milímetro a mais da ponta-da-chuteira-naquela-fracção-de-segundo. Até as caras são coleccionáveis. E vê-se a ilha, a casa e a mãe do guarda-redes cabo-verdiano Vozinha, que gosta de telenovelas e lá lhe arranjaram maneira de ir aos Estados Unidos ver o filho jogar.
O Mundial é esta máquina tão poderosa de aparição que nem a mãe do guarda-redes do Chaves é deixada em sossego.
O raciocínio reflexo diria: mas isso é fantástico. Mas o que o raciocínio reflexo não tem em conta é que não se trata bem de visibilidade, mas de excesso de visibilidade. O excesso de visibilidade desfigura. E a transparência, ao contrário do que se poderia imaginar, torna as coisas mais opacas. Eis uma hipótese perfeitamente válida para uma genealogia do grotesco.
Já ouviram falar nos Angine de Poitrine? Experimentem escrever o nome no Google e vejam o que acontece. Tem graça, não tem? Adiante. O fenómeno é extraordinário. O duo que veio do Quebec, praticante de math-rock instrumental, tinha tudo para cumprir seis ou sete boas temporadas em festivais semi-obscuros, algures pelas Américas sofisticadas. Mas, graças a uma mitologia de ocasião, feita de pintarolas e grunhidos processados, tornou-se objecto de culto.
Não se trata de “culto” naquela acepção em que três pessoas muito informadas gostam de uma coisa difícil, mas no sentido religioso e especulativo da palavra: concertos cheios até ao barrote, discos esgotados a circular por valores esdrúxulos, gente a discutir a identidade dos músicos como se estivesse a decifrar uma cifra gnóstica, e até uma espécie de Angine de Poitrine apócrifo surgido na Rússia, ou coisa parecida.
Concebido ou não com esse intuito, o que é certo é que se tornou num mecanismo de gerar desejo particularmente eficaz.
A banda aparece em palco com fatos às bolas e enormes cabeças de pasta de papel. Khn — eu não disse que a mitologia era de ocasião? — toca uma guitarra absurda com precisão lunática; Klek toca bateria como se estivesse a cumprir um rito tribal inventado por um professor de álgebra que enlouqueceu durante o recreio. Não há rostos nem psicologia, mas duas figuras excessivas, meio infantis, meio demoníacas, que se mostram escondendo-se.
Parecendo que não, há um parentesco entre os Angine, que escondem tudo, e o Mundial, que tudo revela. O raciocínio reflexo disparará imediatamente: claro, é a bola. Mas não. É o monstro. Figuras demasiado artilhadas, fatiotas demasiado gráficas, gestos demasiado marcados, gente demasiado pintada. A enumeração serve para os dois e desemboca em gente adulta reduzida a mascotes voluntárias; invisível pelo modo como se torna demasiado visível.
No Mundial, a barafunda espera que a bola encontre uma ordem. Nos Angine, também.
Dir-se-ia que o fascínio que o grotesco exerce tem qualquer coisa a ver com a negação da beleza. Mas é bem possível que a atracção venha, precisamente, de ser a sua ante-câmara.
Os Angine de Poitrine e o Mundial interessam porque, escondida por baixo do grotesco e do ruído visual, há uma promessa de forma. Quando ela finalmente surge, redime-nos, pobres criaturas caídas: cabeças de pasta de papel ou estádios inteiros a berrar pela sua pequena eternidade. Tanto faz.



